As necessidades essenciais das Crianças Altamente Sensíveis

As necessidades essenciais das Crianças Altamente Sensíveis

Se és uma Pessoa Altamente Sensível (PAS) certamente que te lembras de alguns dos desafios da tua infância e adolescência. E se não és PAS, mas tens crianças altamente sensíveis (CAS) a teu cargo quer como pais, educador, professor ou até terapeuta, este artigo é importante para ti. Para melhor apoiares e guiares esse ser especial que tens a teu cargo, e compreender as suas necessidades. Vamos lá.

Por agora já sabes que 20% da população nasce com um sistema nervoso altamente sensível desenhado para processar o mundo à sua volta de forma intensa e profunda. Isso quer dizer que os bebés e crianças altamente sensíveis também possuem as características de este traço de personalidade.

E se os adultos têm os seus desafios de alta sensibilidade, as crianças não são exceção. Mas, o facto é que, se desde tenra idade tivermos em conta as características e necessidades deste traço, a vida vai ser bem mais fácil à medida que crescemos. Isto é, podemos empoderar as Crianças Altamente Sensíveis (CAS) de modo que não tenham certos desafios que nós, como adultos, tivemos de enfrentar porque os nossos pais (e a sociedade em geral) nessa altura desconhecia este traço de temperamento.

Porque se uma criança é condenada a esconder quem realmente é (como aconteceu a muitos de nós) e sentir vergonha da sua sensibilidade (como aconteceu a muitos de nós) abrimos caminho para um adulto com potenciais problemas. Autoestima frágil, falta de autoconfiança, ansiedade, depressão, dificuldades relacionais, são apenas alguns dos condicionamentos que elas podem vir a enfrentar quando crescem.

Olhando para trás, sei que a minha vida teria sido muito mais fácil e menos angustiante se eu soubesse que nasci com um sistema nervoso tão especial. Certamente que teria investido em aprender estratégias de autorregulação que me teriam ajudado nesta Jornada da Alta Sensibilidade.

E revejo-me como menina, e a tudo quanto fui submetida, com um enorme carinho por essa criança que não foi compreendida nem pela família, nem por ela própria. Por isso, o trabalho da autocompaixão com a minha criança interior foi um passo tão importante no meu crescimento.

Agora dou atenção à pequena Sofia que vive dentro de mim e esforço-me por compreendê-la quando ela ativa os mecanismos de defesa que foi criando. A ansiedade, os medos, as inseguranças, as incertezas. E abraço-me com frequência dizendo “estás segura” para ela saber que pode contar com a minha presença.

Se não sabes qual a tua pontuação no Teste de Alta Sensibilidade, clica no botão abaixo ou partilha com alguém o teste:

Então como saber se estou perante uma criança altamente sensível? O que não fazer nesse caso? E como posso apoiá-la na sua jornada?

Abaixo partilho contigo 3 fatores importantes a ter em conta que vão empoderar-te nesta jornada. Vamos lá!

  1. SINAIS QUE ESTÁS PERANTE UMA CRIANÇA ALTAMENTE SENSÍVEL


    A verdade é que não existe um guião que te vá dar a certeza de estares perante um bebé ou uma criança altamente sensível. Assim como para um adulto, o teste de alta sensibilidade é apenas o começo. Depois há que aprofundar o conhecimento deste traço para confirmar o resultado. Foi para isso que criei O Mundo das Pessoas Altamente Sensíveis, para te ajudar nesta Jornada.

    Dito isto, existem algumas características que podes observar e que desde já te podem ajudar neste caminho.

    Por exemplo, se reconheces que a criança:
    — Não gosta de sons altos e chora ou protege os ouvidos do barulho com as mãos; assusta-se com facilidade; esconde-se atrás das tuas pernas perante pessoas estranhas.
    — Leva tempo a observar as crianças antes de se juntar à brincadeira; não gosta de sítios com muita gente (ex. festa, centros comerciais, supermercados); desespera ou irrita-se com facilidade; quer fazer tudo bem e irrita-se quando não consegue à primeira, é perfecionista; gosta de aprender, mas não gosta especialmente da escola em si.
    — É sensível à dor, aos cheiros ou às luzes brilhantes; a roupa áspera ou as etiquetas e costuras causam-lhe desconforto; sofre de alergias, problemas digestivos ou dores de cabeça.
    — Tem dificuldade em dormir desde a nascença, em especial após dias agitados; é muito atenta aos detalhes que a rodeiam, incluindo às emoções dos outros; sofre de ansiedade de separação; gosta de estar ao colo; preocupa-se por questões profundas como a pobreza e justiça social, os animais ou o ambiente e possui uma alta empatia.
    — Fica facilmente ressentida quando lhe chamam a atenção ou falam-lhe alto; não gosta de violência; precisa de tempo sozinha para acalmar.
    — Parece muito adulta e matura para a sua idade; é muito curiosa fazendo perguntas profundas; exibe emoções profundas; é muito criativa; leva tempo para se decidir porque tem de pensar muito.

    Se reconheces muito destes padrões, então a Dra Elaine Aron — a psicóloga clínica que deu o nome ao traço da alta sensibilidade nos 90 — tem na sua página um teste para crianças que também te pode ajudar. Podes encontrá-lo AQUI (em inglês).

  2. COISAS A EVITAR


    Se continuaste a ler este artigo é porque identificaste algumas características que te levam a pensar que estás perante uma CAS. Nesse caso, há coisas que podemos evitar para não sobrecarregar o sistema nervoso altamente sensível.

    Por exemplo:
    — Sabemos que as CAS não reagem bem a castigos e a disciplina rígida. De facto, nenhuma criança gosta disso, mas a diferença é que uma CAS pode traumatizar com mais facilidade.

    O que para outra criança não passa de um raspanete, numa CAS é uma situação que vai ficar marcada para a vida.
    Eu lembro-me de quase todas as vezes que me bateram como forma obsoleta de disciplina e das injustiças que me cometeram; tenho tudo interiorizado em memórias que recuam até aos meus 3 anos!

    — Não grites. Usa uma voz suave. A criança já te ouve alguns decibéis acima de o que tu pensas. Podes ser firme, mas gentil. Caso contrário, aos primeiros gritos a CAS deixa de ouvir-te porque ativa imediatamente a resposta do stress e não vai captar a tua mensagem (claro que há exceções, por exemplo, se ela estiver em perigo grita e bem alto!).

    — Em bebés, tenta fazer alguma prática de relaxamento antes de amamentar. Apenas 3 minutos de respirações profundas prévias já podem ajudar. É provável que os bebés altamente sensíveis já sintam as tuas emoções e isso pode afetá-los.

    — Evita: sobrecarregar a criança com demasiadas atividades a nível diário; multidões e grandes reuniões de pessoas; música alta no carro ou em casa; histórias de ninar que incluam monstros ou elementos stressantes; muda as luzes brancas para luzes quentes; não tenhas o seu quarto cheio de brinquedos espalhados.

  3. COMO APOIAR


    E agora vamos ao sumo da questão: como apoiar as CAS para que floresçam em adultos que usam a sensibilidade a seu favor e tenham um impacto positivo neste mundo que tanto precisa de sensibilidade e compaixão?

    Assim, ficam aqui algumas sugestões para te ajudar neste precioso caminho:

    — Sendo que as CAS são verdadeiras esponjas de o que os rodeia, é óbvio que o seu bem-estar vai depender do teu bem-estar. Isto é, se não estás bem, a criança vai fazer tudo para confortar-te, mas esse não é o seu trabalho. Isso seria o que se chama hoje em dia, abuso emocional. Por isso, se investires no teu bem-estar físico, mental e emocional, já estás a ajudar a criança. Lembra-te disto, é importante! Cuidar de ti, é cuidar dos outros. Mantém-te calmo.

    — Prepara-a de forma gradual para novos eventos e experiências como uma festa, as férias ou o primeiro dia de escola. Eu, por exemplo, fui expulsa do primeiro infantário onde estive por chorar tanto que meti as outras crianças no mesmo registo. No segundo infantário chorei tanto que rebentei os capilares da cara. Essa marca física durou até à minha adolescência.

    Se tivessem feito este processo com tempo, de forma a adaptar-me melhor, tinham-me poupado esse trauma. Mas nessa altura não se falava de alta sensibilidade nem de parentalidade consciente…

    Não se trata de todo de super proteger, passar os nossos medos ou colocar as crianças numa redoma de vidro. Mas sim de reduzir a sobre-estimulação do sistema nervoso e criar um ambiente seguro para as novas experiências que devemos incentivar (ex. a visita a uma quinta pedagógica, aprender a nadar ou andar de bicicleta, entrar em contacto com a natureza, viajar e tantas outras). Este planeta tem tudo para nos fazer felizes, não há que ter medo dele 🙂

    — Dedica tempo de qualidade a estarem juntos, encoraja o autocuidado e o estabelecimento de limites saudáveis, e valida as suas emoções. Como adultos queremos ser ouvidos, reconhecidos, validados e sentir-mo-nos seguros. Essas necessidades essenciais começam na nossa infância. Nutri-las é importante. De facto, os vínculos que se estabelecem em tenra idade vão estabelecer a forma como nos relacionamos no futuro. Não é por acaso que muitas PAS desenvolvem um vínculo inseguro nas relações em idade adulta.

    — No que toca ao bem-estar, dá preferência a uma abordagem de saúde natural. Assim como os adultos, o organismo das CAS reage melhor à acção suave dos remédios naturais do que a métodos mais invasivos.

    — Tem atenção à forma como te expressas. Por exemplo:
    Em vez de dizer:
    Porque é que estás tão preocupado?
    diz:
    Entendo que estás preocupado, queres partilhar porquê?

    Em vez de dizer:
    Deixa de ser tão sensível!
    diz:
    Queres sentar-te aqui abraçado a mim para te sentires seguro?

    Em vez de dizer:
    Os outros meninos fazem isto, também tens de conseguir!
    diz:
    Entendo que não te sintas seguro, queres que esteja lá para apoiar-te?

    Em vez de dizer:
    Hoje estou chateada(o) com o teu pai(mãe), ele(a) é um(a) idiota!
    diz:
    Obrigado por preocupares-te com as minhas emoções, mas eu sou responsável por elas. Vou procurar ajuda. Não é o teu trabalho seres responsável por como me sinto.

    Estas são apenas algumas coisas simples que podem contribuir para o bem-estar e empoderamento das CAS.

    Para aprender mais sobre este traço convido-te a explorar este Mundo das Pessoas Altamente Sensíveis quer sob a forma de blog, podcast ou vídeo.

    E, como pessoa com crianças a seu cargo quer como pais, educador, professor ou até terapeuta, aconselho-te a leitura do livro da Dra Elaine Aron “Crianças altamente sensíveis: ajudar as crianças a prosperar quando o mundo as sobrecarrega”.

    Embora ainda não haja uma tradução para português, podes encontrar o original em inglês AQUI ou a tradução em espanhol AQUI.
    Se estás no Brasil procura na tua plataforma online este livro.

E se precisas de ajuda nesta jornada, se te sentes sobre-estimulado, esgotado, ansioso, desajustado, tens dificuldade em estabelecer limites saudáveis ou tens uma autoestima frágil, ou simplesmente queres-te encontrar, estou aqui para te apoiar. Não tenhas medo de pedir ajuda. Não estás sozinho!

Muitos pais fazem qualquer coisa pelos filhos, exceto deixá-los ser eles mesmos.”

Banksy

E tu, tens a teu cargo uma criança altamente sensível? Quais os teus desafios nesta área? Partilha na secção de comentários a tua experiência.

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Sofia Loureiro | BSc • MNat • PhD

Terapeuta Natural & Mentora de Pessoas Altamente Sensíveis • Autora • Palestrante

Especializada em Pessoas Altamente Sensíveis • HSP Certified Nickerson Institute • Terapeuta da Dra Elaine Aron List

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2 thoughts on “As necessidades essenciais das Crianças Altamente Sensíveis

    1. Obg Laura.
      De facto é importante trazer à consciência todos estes fatores que nos ajudam nesta jornada.
      Abraço, Sofia

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